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Autor Tópico: Breve história do carreto  (Lida 19732 vezes)

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Offline LMagina

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Breve história do carreto
« em: 03:49 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Boas!

Hoje em dia, todos temos os carretos como peça fundamental do nosso equipamento. No entanto, estes só se tornaram parte do kit de um pescador há relativamente pouco tempo - e, mesmo agora, o seu uso não é totalmente universal, visto que ainda há quem pesque sem um. O carreto existe para armazenar linha, para ajudar no lançamento e para ajudar a cana a rebocar o peixe. Contudo, usá-lo não é absolutamente necessário - quem leu 'O Velho e o Mar' de Hemingway, sabe que é possível pescar o maior peixe com, nada mais sofisticado, do que uma linha de mão, desde que tenha paciência e muito espaço no mar. Assim, por muitos milhares de anos, os pescadores pescaram sem carretos e não viam inconveniente nenhum nisso. Também havia abundância de peixe...

Foram, provavelmente, os chineses que inventaram o carreto de pesca por volta de 300 ou 400 DC, mas até ao século XVII, a única prova de que era realmente usado, era em forma de arte (pinturas e/ou desenhos). Até que um pescador profissional chamado Barker deixou escapar que um "enrolador" tinha sido útil para 'trabalhar' peixes maiores. Até então, os pescadores ou usavam fio feito de crinas de cavalo, que prendia à ponta da cana ou, mais raramente, uma linha que corria através de um arco na ponta da cana.

No final do século XVIII, os pescadores já usavam grandes 'guinchos' feitos de latão, que eram feitos por joalheiros, fabricantes de relógios e por artesãos. Estes 'guinchos' podiam ser fixados à cana de três maneira diferentes: um veio (como na imagem), uma braçadeira circular ou um pé (como os carretos actuais) e podem ser divididos em duas classes: bobines de ação única e multiplicadores primordiais.
Os multiplicadores foram os primeiros 'gadgets' para a pesca à cana. Muitos pescadores compravam-nos, porque estes permitiam rebocar o peixe muito mais rapidamente do que as bobines de ação única. No entanto, as engrenagens de bronze internas não eram fiáveis e, mais cedo ou mais tarde, ao trabalhar um peixe maior, os seus dentes de bronze macio acabavam por moer - a metalurgia ainda não estava à altura.


Todos estes primeiros carretos tinham uma coisa em comum: os eixos estreitos, como é possível ver na imagem acima. Esta foi uma das razões pelas quais os pescadores insistiram no uso de multiplicadores.

Até metade do século XIX, os pescadores usavam o mesmo carreto para qualquer tipo de pesca, independentemente se era pesca à bóia, corrico ou pesca com mosca. A partir desta altura começou a ocorrer uma especialização gradual. Foi nesta altura que se começaram a ouvir as designações "pescador à mosca" e "pescador grosseiro".

Um dos primeiros carretos que pode reclamar um parentesco com a pesca grosseira é o 'Nottingham', que apareceu há cerca de cento e cinquenta anos. Estes carretos largos de madeira, deviam o seu nome ao lugar onde os primeiros foram feitos. Tinham cerca de quatro centímetros de diâmetro e eram feitos quase inteiramente de madeira, além de um reforço do esqueleto em metal na parte de trás.


Estes carretos eram usados na pesca à bóia e ao corrico, utilizando uma linha muito fina. Um pescador muito experiente conseguia lançar a mais leve das bóias a vinte, ou mais, metros diretamente do carreto, porque a bobine de um 'Nottingham' bem conservado, tinha uma rotação incrivelmente livre.

A bobine de um Nottingham era presa ao carreto através de uma porca de bronze, mas, por volta de 1880, foi colocada uma peça chamada 'pino central', que tinha um travão de molas, permitindo que a bobine pudesse ser libertada rapidamente, pressionando um botão no seu centro. No início, estes carretos tinham um corpo de madeira e uma bobine de baquelite, mas como o alumínio se tornou mais barato, todas as versões passaram a ser feitas de metal.


Enquanto isso, a indústria de pesca à mosca não tinha estado parada, embora seja surpreendente quanto tempo os seus fabricantes levaram para perceber que as virtudes do simples Nottingham poderiam ser aplicadas aos seus produtos mais caros.
No final do século XIX, o design relativamente fraco dos 'guinchos' de bronze, que tinham sido regra há 50 anos, já tinha dado lugar a itens muito mais sólidos, que foram descritos como 'Carretos Birmingham', por serem aí maioritariamente feitos. Normalmente, um carreto Birmingham era construído a partir de latão, embora pudessem ter bobines de ebonite e a manivela era construída no lado de uma placa giratória. O seu design fazia com que fosse impossível mudar a bobine, de modo que os pescadores tinham de retirar toda a linha depois da pescaria para evitar que a seda apodrecesse.


O fim da era 'Birmingham' deveu-se ao aparecimento do famoso 'Perfect Hardy', o precursor dos modernos carretos para pesca à mosca, que por sua vez foi inspirado por uma bobine feita nos Estados Unidos por Orvis.
O 'Perfect' já tem a forma de um carreto moderno de pesca à mosca, a bobine é destacável (com um pouco de esforço) e drag ajustável. As primeiras versões foram construídas a partir de uma mistura de cobre e de alumínio e, mais tarde, foram totalmente feitos de alumínio. O 'Perfect' também já tinha um rolamento no mecanismo, que era suposto fazer a bobine correr mais livremente, embora na prática não fizesse qualquer diferença.


Recuando um pouco no tempo, um novo tipo de carreto surgiu em 1907, quando A.H. Illingworth olhou o transportador de um dos seus teares e pensou na pesca. O ato de genialidade de Illingworth foi perceber que a linha poderia ser lançada a partir de uma bobine de um carreto, usando um mecanismo de transporte modificado.
Ao olhar-se com atenção para um Illingworth Nº3, é possível ver que ele tem um drag frontal ajustável e uma bobine que sobe e desce, para evitar que a linha se amontoasse só num sítio - a única coisa que falta (em relação aos de hoje em dia) é asa do cesto.


Hardy resolveu o problema de como construir um Illingworth melhor, de forma espetacular, em 1932, com a sua série de carretos Altex, incluindo uma asa de cesto, que automaticamente 'apanhava' a linha e, com isto, eliminou a maioria (embora não todos) dos problemas de enrolamento da linha.


O Altex teria sido um marco no material de pesca e a patente de Hardy teria sido uma enorme vantagem comercial, se não fosse por uma coisa - o nylon ainda não tinha sido inventado! Usando um carreto fixo, significava lutar contra linhas emaranhadas, que eram o resultado inevitável de usar as linhas de fibra naturais entrançadas, que eram as únicas disponíveis na época. Mesmo com um carreto Altex bem tratado e com as linhas limpas, emaranhados sucessivos desesperaram o mais cuidadoso dos pescadores. Como tal, muitos pescadores ficaram com os seus amados Nottinghams, aceitando as distâncias de lançamentos mais curtas.
O Illingworth e o Altex eram projetos fora do seu tempo, na medida em que permitiram aos pescadores lançamentos de aparelhos leves com extrema precisão, mas as linhas que estavam disponíveis nessa época, simplesmente não estavam à altura da tarefa!

Só em 1954, quando a patente de Hardy expirou, é que seria possível outra pessoa pegar neste projeto. Embora tenham aparecido muitos produtos concorrentes, os verdadeiros beneficiários da expiração da patente foram Charles Pons e Léon Carpano, cunhados, que dirigiam uma empresa de engenharia em Cluses, França. Eles projetaram um carreto simples e barato, que foi produzido em massa e venderam cerca de vinte e cinco milhões de unidades desde então, tornando-se num dos mais bem sucedidos, senão o mais bem sucedido, carreto de todos os tempos - o Mitchell.


Mas mesmo o Mitchell, um triunfo da simplicidade e do senso comum, não poderia ter-se tornado tão popular sem a invenção de um material, o nylon, em 1938. As primeiras linhas de monofilamento em nylon foram produzidas em 1939.
A linha de nylon revolucionou a maneira como as pessoas pescavam e, a combinação do Mitchell com o novo material, quase acabou pesca à mosca no início dos anos 70, porque era muito mais fácil ir corricar. Qualquer um poderia ser ensinado a 'dar à manivela' em cinco minutos...

A partir daí, toda a evolução (que tem sido contínua) tem especializado os carretos para os diversos tipos de pesca, e tem-nos tornado cada vez mais leves e robustos. A evolução dos carretos, no entanto, acaba quase sempre por depender da evolução das linhas de pesca.


Fonte: The Fishing Museum Online

Obrigado pela leitura.
Cumprimentos,
LMagina
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Offline Kabetula

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Re: Breve história do carreto
« Responder #1 em: 08:55 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Nice obrigado pela partilha
 
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Offline tiagopacheco

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Re: Breve história do carreto
« Responder #2 em: 09:21 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Espetaculo Adorei!!!!
 

Offline De La Hoya

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Re: Breve história do carreto
« Responder #3 em: 10:34 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Grande Luis pá, tu foste uma contratação e pêras hehehe, muito bom obrigado pela partilha, abraço :fixe: :fixe: :fixe:
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Offline FilipePC

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Re: Breve história do carreto
« Responder #4 em: 13:27 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Boa partilha.
Homem Livre, gostaras sempre do mar...
 

Offline Gaviao

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Re: Breve história do carreto
« Responder #5 em: 14:33 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Sim senhor

Uma breve descrição para se ficar com um grande conhecimento...
 

Offline pesca2joa

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Re: Breve história do carreto
« Responder #6 em: 21:33 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Muito bom.
 
Obrigado pela partilha.
João Cardoso
 

Offline José Garcez

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Re: Breve história do carreto
« Responder #7 em: 22:24 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Boas,

Excelente Luis  :fixe: obrigado pela partilha.

P.S. "o velho e o mar" apesar de ser das obras mais pequenas de E.H. foi um dos livros que mais gostei de ler da sua obra, ou não fosse ele um exímio pescador  :)

Abraço
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Offline Quantum

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Re: Breve história do carreto
« Responder #8 em: 23:30 Sexta, 10 de Janeiro de 2014 »
Brutal este artigo! Este assunto fascina-me, ou não fossem os carretos o meu equipamento de pesca preferido e aquele em que mais gasto dinheiro... ;)
 

Offline ffgsoares

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Re: Breve história do carreto
« Responder #9 em: 16:51 Sábado, 11 de Janeiro de 2014 »

 Tá um espetáculo este artigo, é fascinante perceber a evolução da máquina.

  :fixe:
 

Offline Nelson Peres

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Re: Breve história do carreto
« Responder #10 em: 18:03 Sábado, 11 de Janeiro de 2014 »
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Grande Luis pá, tu foste uma contratação e pêras hehehe, muito bom obrigado pela partilha, abraço :fixe: :fixe: :fixe:
É verdade ;)
Bela partilha :fixe:
Nelson Peres
 

Offline jorge borralho

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Re: Breve história do carreto
« Responder #11 em: 19:00 Sábado, 11 de Janeiro de 2014 »
Muito bom parabens.
 

Offline Jazz

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Re: Breve história do carreto
« Responder #12 em: 20:14 Sábado, 11 de Janeiro de 2014 »
Grande artigo, parabéns.


Esse Mitchell é-me familiar:



 

Offline Luis novo

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Re: Breve história do carreto
« Responder #13 em: 20:44 Sábado, 11 de Janeiro de 2014 »
amigo obrigado pela partilha,bom post... :aplau: :aplau: :aplau: :aplau: :aplau: :aplau: :aplau: :aplau: :aplau:
 

Offline NelsonVeloso

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Re: Breve história do carreto
« Responder #14 em: 22:10 Domingo, 12 de Janeiro de 2014 »
Em grande Luís, adorei :D
Obrigado pela partilha,
Abraço seu viciado  ;D
 

 

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